Em conto de Kafka um macaco narra o que precisou fazer para se tornar gente, não foi tão difícil!

O macaco caminha a lentos passos em direção ao homem, em uma linha evolutiva que foi popularizada pela teoria da evolução de Charles Darwin e que revelou as humanas raízes animais. Quão evoluídos somos? Todos os homens são iguais perante a evolução? O que é preciso fazer para conquistar  espaço e status na sociedade contemporânea? Franz Kafka (1883-1924), no início do século XX, expôs com simplicidade uma complexa questão que encontra significados até os dias atuais.
Em seu conto Um relatório para uma academia, de 1919, um macaco narra as transformações que ocorreram em seu processo de humanização, a única saída para uma vida condenada à jaula. Se a academia observa os comportamentos e o funcionamento da natureza para dela extrair conhecimentos em seu benefício, aqui o objeto de estudo é o homem, que por vezes é o próprio animal, colocado do lado oposto da jaula. Cada detalhe de seu comportamento, por vezes incompreensível, é imitado pelo ex-símio, cujo maior desafio está em beber uma forte aguardente de uma garrafa. Assim como tantos outros costumes, o homem se acostuma a sabores, comportamentos e atitudes, em princípio indesejadas, em prol de um espaço na sociedade.
“Sua origem de macaco, meus senhores, até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos senhores como a minha está distante de mim”.
Homem-macaco ou macaco-homem, não importa a interpretação, mas sim as variáveis que a ficção possibilita. Aquele que está de fora e abre mão de sua liberdade para encontrar um caminho possível de ser vivido, para ser aceito na sociedade; a crueldade que se impõe ao próximo quando o poder está colocado, o desejo comum de estabelecer relações sociais que valorizem a distinção social. Nesse cenário, é possível identificar tanto o mundo dos que perderam a liberdade e foram postos em jaulas, como o daqueles que vivem em aparente liberdade. “Aprende-se o que é preciso que se aprenda; aprende-se quando se quer uma saída”, relata o personagem à platéia de acadêmicos.
Kafka poderia ter escrito o conto pensando nos escravos capturados no continente africano, nos prisioneiros de campos de concentração e de guerra, nos trabalhadores, nos povos do terceiro mundo ou mesmo nos chamados macacos da América Latina. Vozes do homem comum, oprimido, injustiçado e fragilizado, que marcam a obra desse autor tcheco e judeu. “Um relatório” ironiza a teoria de evolução de Darwin, colocando em cheque o sentido de evolução enquanto melhoria ou superioridade humana. Evoluir para onde?



Um relatório para uma academia
Franz Kafka (conto do livro Um médico rural)
Companhia das Letras, 1999

About superneandertal

Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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