ARQUEÓLOGOS EM GUERRA

 Enigma

É possível  afirmar que Neandertais tinham sofisticação cultural?

 20/10/2010 (Paloma Oliveto-C. Brasiliense)
O Homo sapiens neanderthalensis habitou a Europa e parte do oeste asiático aproximadamente entre 230 mil e 29 mil anos atrás. Bastante adaptados ao frio, tinham cérebros 10% maiores em volume que os dos humanos modernos. Os neandertais tinham cerca de 1,65m de altura e eram muito musculosos. O desaparecimento da espécie ainda é um enigma para a ciência. Uma das teorias é a de que a combinação de alterações climáticas e o impacto da presença dos seres humanos tenham sido responsáveis por sua extinção.
Na luta pela supremacia das espécies, o Homo sapiens venceu, com a extinção dos neandertais, há cerca de 29 mil anos. Mas, até hoje, paleontólogos se dividem sobre o grau de sofisticação intelectual da única espécie humana diferente do homem moderno que se tem notícia. Por décadas, dominou a imagem de um ser primitivo, rude, quase caricatural. Nos últimos tempos, estudiosos tentam apagar essa ideia do brutamontes aparvalhado, muito inferior aos inteligentes e espertos sapiens.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, acaba de reacender a polêmica antropológica. Com base em datações de carbono realizadas em fósseis de neandertais e objetos encontrados com eles na Caverna de Renne, sítio arqueológico francês, a equipe liderada por Thomas F.G. Higham afirma que, diferentemente do que as recentes pesquisas sugerem, o Homo sapiens neanderthalensis não era tão avançado em termos culturais.

Questionamento
Um dos maiores especialistas no comportamento do Homo neanderthalensis, o professor João Zilhão, da Universidade de Bristol, discorda das análises feitas por Higham. Ele argumenta que, estatisticamente, as 21 peças analisadas representam muito pouco do conteúdo de Rennes. Dessas, oito foram consideradas intrusivas, ou seja, de outro período. “O ponto não é se algum problema ocorreu na caverna de forma a misturar os materiais encontrados nos diferentes níveis, porque distúrbios como esses sempre acontecem em sítios arqueológicos, particularmente em cavernas. O ponto de relevância é: mesmo se alguns ornamentos são de outro período, pode-se dizer que todos eles são?”, questiona. “A resposta a essa pergunta é muito simples: absolutamente não”, completa.

“Mesmo se aceitarmos que todos esses resultados são estimativas acuradas da idade das amostras datadas – o que, obviamente, não é o caso -, e que as amostras refletem a composição de todo o depósito, um simples cálculo de probabilidade nos leva ao ponto onde quero chegar”, afirma Zilhão. “Se tomarmos como válida para todas as classes de achados (ossos, ornamentos, utensílios etc.) a proporção de objetos intrusivos supostamente revelada pela datação (38%), os outros 62% são realmente do castelperronense. A probabilidade de que o comportamento dos ornamentos seja diferente do das amostras de ossos datadas, ou seja, de que todos os ornamentos, e não apenas 38% deles, sejam intrusivos, é de 0,000000000000136%, ou uma em 73,53 bilhões. Ou seja, nula.”

Questionado pelo Correio sobre a análise de Zilhão, Higham diz que respeita a opinião do especialista. “De fato, não descobrimos que todos os ornamentos são intrusivos”, afirma. “Nossa conclusão é que o material parece ter se movido dentro do sítio e, até termos mais provas de que os ornamentos eram dos neandertais, temos de levar em conta o resultado da nossa pesquisa na discussão sobre o grau de complexidade dos neandertais. Essa é a primeira vez que obtivemos uma prova sólida usando as melhores técnicas que existem atualmente na ciência do radiocarbono. E essa prova sugere que houve misturas.” Higham afirma que tentou continuar a pesquisa, fazendo a datação nos dentes encontrados no local, mas não conseguiu permissão devido à fragilidade das peças, que seriam destruídas pelo espectrômetro. “Talvez, no futuro, isso possa ser feito e, então, poderemos voltar a essa questão”, afirma.

O estudo, publicado na edição de segunda-feira da Pnas, revista da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos, sustenta que artefatos antes atribuídos aos Neandertais – na maioria, ornamentos pessoais, algo que indica certo grau de sofisticação cultural – são, na verdade, de um período no qual a espécie já havia sido extinta. Localizada em Arcy-sur-Cure, na França, a Caverna de Renne compreende 15 níveis arqueológicos de diversas idades. Cada um desses níveis tem um nome, relacionado ao tipo de cultura que pertence, sendo que os três mais importantes são chamados chatelperronianos, em que há uma quantidade extraordinária de artefatos do Paleolítico Superior.

Entre os objetos encontrados nos níveis chatelperronianos, há ornamentos pessoais, como anéis, pingentes feitos com ossos e brincos. Esses artefatos têm sido associados ao início de um simbólico comportamento do homem moderno, pois não tinham qualquer outro uso a não ser o de enfeitar, forte indício de uma cultura, ainda que rudimentar. A equipe de Higham sustenta, porém, que esses objetos, apesar de descobertos em níveis arqueológicos da época dos neandertais, não foram feitos por eles, mas pertencem a outros períodos e acabaram se misturando como o material chatelperroniano. Esse fato, diz o novo estudo, teria induzido os pesquisadores a pensar, erroneamente, que os objetos faziam parte da cultura do Homo neanderthalensis.

“Nossos resultados mostram que o que há na Caverna de Renne não é totalmente confiável”, diz. Ele ress
alta, contudo, que não está afirmando se os neandertais eram ou não capazes de fazer artefatos sofisticados: “Nossa pesquisa não nos permite responder a essa questão, faz com que a resposta seja mais improvável do que se imaginava antes”.

» Três perguntas para Thomas Higham, antropólogo da Universidade de Oxford

O que suas descobertas significam para a antropologia? O que muda no que sabemos sobre o comportamento dos neandertais?
Certamente, nosso estudo não está sugerindo que os neandertais não eram avançados em termos comportamentais, nós sabemos, por exemplo, que eles compartilhavam de muitos aspectos conosco, como a habilidade de falar e comunicar, fazer planos, obter diferentes fontes de minerais e animais de várias regiões, etc. Nosso estudo descobriu que alguns outros aspectos que têm sido inferidos aos neandertais, como a habilidade de produzir ornamentos e joias como pingentes feito de ossos, pode ser problemática, contudo.

A pesquisa não foi bem recebida por alguns antropólogos, como o Dr. João Zilhão, da Universidade de Bristol, que questionou o fato de que, estatisticamente, os objetos intrusivos eram poucos. O que o senhor acha dessas críticas?
Acho que o comentário de Zilhão é justo e, de fato, não dissemos que todos os ornamentos são intrusivos. Nossa conclusão é que o material parece ter sido movido no sítio, e até que mais evidências sejam obtidas para fornecer mais suporte para a ssociação entre os ornamentos nas camadas dos neandertais e os restos mortais dos neandertais que se encontram na caverna, temos de levar em conta a nossa descoberta. Essa é a primeira vez que obtevemos sólidas evidências de que algum material foi movido das camadas mais baixas para as mais altas. Usamos a melhor técnica científica disponível em ciência de radiocarbono.

As pesquisas vão continuar na Caverna de Renne?
Nós tentamos obter permissão para analisar diretamente os dentes dos neandertais, mas a permissão foi negada. Isso porque os dentes são peças muito pequenas e nosso método é destrutivo. Talvez, no futuro, isso possa ser feito, seria importante porque pode mostrar se os dentes de fato vêm de níveis mais baixos, conforme algumas pessoas sugerem. Também podemos tentar datar alguns dos ornamentos diretamente. Tentamos fazer isso antes, mas alguns eram muito pequenos, tornando impossível a retirada de colágeno suficiente. No futuro, talvez seja possível tentarmos novamente.


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Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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