ANCESTRAIS ou E.T.s?

Neandertais e humanos modernos atingiram níveis comparáveis de realização cultural.

Professor João Zilhão (Dept. Arqueologia e Antropologia-Bristol University)
Se pedissem a alguém para que formasse uma opinião baseada na maneira como as descobertas científicas sobre o Homem de Neandertal são divulgadas ao público, esse alguém difilcilmente poderia perceber essa multi-revisada visão dos Neandertais como seres cognitivamente sofisticados, tornando-se uma parcela totalmente humanizada de nossa ancestralidade, como têm sido endossado por grade parte (senão a maioria) dos arqueólogos e paleontólogos envolvidos nessas pesquisas.
Assim, uma das características mais fascinantes dos estudos contemporâneos sobre as origens do homem moderno reside em sua contínua popularidade, especialmente nos meios de comunicação e nos ambientes mais conservadores do mundo acadêmico, das visões tradicionais do Neandertai como um ser extraterreno, não do espaço sideral, mas de “fora do  nosso tempo“.  
Apesar de existirem razões para  que se restrinja o tema ao estrito domínio da história científica, o papel especial desempenhado pelos Neandertais no final do século 19, os debates sobre a evolução ainda percorrerão um longo caminho para que se expliquem as atitudes atuais.
Naquela época, os Neandertais foram usados como provas auxiliares no auge do meanstram das exibições etnológicas da escada racial, às quais acrescentou uma dimensão temporal.
Hoje, o “ranking de raças humanas” já não é aceitável, mas, na cultura ocidental, a necessidade filosófica ou religiosa para colocar “nós humanos” no topo da escada da vida ainda é muito prevalente e explica a constante busca por imagens do que nós “não somos” (ou não mais), o que, pelo contrário, viria a reforçar os princípios do que nós somos”.
Assim, dependendo das diferentes percepções, a base fundamental para o estado triunfante da sociedade civilizada e o capitalismo industrial, surge da mesma maneira que a tendência para representar os Neandertais como desprovidos das características comportamentais que lhes correspondem.
Para dar apenas alguns exemplos, o Iluminismo enfatizou o poder da razão, Adam Smith enfatizou a importância da divisão do trabalho, e David Ricardo explicou o papel do comércio internacional e vantagens comparativas. Daí, com certeza, advém também a explicação para o desaparecimento dos Neandertais ter diversos postulados na sua inferioridade competitiva, como a suposta falta de conhecimento simbólico,  especialização do trabalho e circulação de longa distância de matérias-primas.
O fato de que tais proposições estejam comprovadamente em completa contradição com o registro empírico não parece deter o seu fluxo ininterrupto. Isto sugere que os vitorianos não estavam completamente errados, os estudos de Neandertal têm o potencial para trazer o progresso não só para a compreensão dos seres humanos do passado como eram no passado, mas também para a compreensão, através da filosofia, da sociologia e da historiografia da ciência, dos humanos presentes como estamos no presente. 
Dito de outra forma, apesar da aparente cacofonia, o campo de estudos de Neandertal tem pelo menos uma conclusão incontroversa a oferecer: que os Neanderthais não devem ser exclusivos dos arqueólogos e paleoantropólogos.

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Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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