Homo Lupus

Lobão lança autobiografia 50 Anos a Mil (30/01/2011)

 Big Wolf(50) detona hipocrisia e mediocridade, dando nome aos bois

Músico fala sobre a dramática relação com a mãe,  o suicídio dos pais e os quases próprio, como tornou-se escritor, como a legislação anti-drogas o prejudicou e o mandou para a cadeia, sua vida louca e doce…

50 Anos a Mil:

 Após receber do pai um soco na cara, Lobão gritou para que saísse do quarto enquanto terminava de fazer as malas. Estava sendo expulso de casa. O velho não saía. Avistou dois violões em cima da cama. Pensou: “O preto ou o de nylon?’’. O de nylon. Pegou o instrumento e fez dele uma clava.

Deu com força na cabeça do pai repetidas vezes. O homem caiu no chão, arrastou-se para fora do quarto tentando fugir dos golpes, que continuavam. Apanhava em silêncio. Ensanguentado, conseguiu chegar à escada.

Em última tacada, o filho o empurrou pelos degraus. Só sossegou porque não havia mais violão para continuar batendo. Em seguida, chamou a irmã: “Vamos sair deste hospício’’. Nunca mais voltou para casa. Tinha 19 anos. Hoje, aos 53 anos, o músico reúne histórias como essa – algumas ainda mais pesadas – na volumosa autobiografia Lobão – 50 Anos a Mil, lançada neste final de semana.
O livro foi escrito com o jornalista Claudio Tognolli, que fez a pesquisa factual: compilava notícias publicadas nos últimos 30 anos, recolhia os inúmeros processos judiciais que Lobão teve de responder, entrevistava outros personagens. O material jornalístico vem intercalado em capítulos à parte que, segundo Lobão, estão lá “pra ninguém dizer que sou louco e estou inventando história’’.
Como o evento da primeira masturbação. Menino carola (pensava em ser padre), era fascinado pela figura do Jesus crucificado. Construiu, na oficina caseira do pai, uma cruz de seu próprio tamanho e arrastou-a nas costas até o quarto. Fez ali sua solitária estreia sexual.
Lobão conta que escreveu 871 páginas de memórias. Jogou fora dois terços delas na edição final.
– Me tratei como um personagem. No começo, estava seguindo um caminho mais existencialista. Depois, optei pela velocidade e intensidade. Como se fosse Indiana Jones – diz.
As aventuras do mocinho se confundem com a do bandido. Incluem um período de três meses na cadeia, condenado por porte e consumo de drogas. E, após a saída da prisão, uma relação íntima com traficantes e marginais nos morros cariocas.
Há contos divertidos, como o dia em que ele e a irmã obrigaram a mãe a fumar maconha. Ou o golpe que deu na Blitz, uma de suas bandas, escondendo deles que ia sair em carreira solo só para aparecer junto da turma numa capa de revista.
Há ainda crises de depressão, tentativas de suicídio dele (por overdose de Rivotril) e da mãe – que acabou com a própria vida e deixou uma carta culpando ele, o filho.
– O livro inteiro sou eu morrendo muitas vezes, de várias maneiras. E depois, me reinventando – diz.
É mais que isso. A partir de sua trajetória turbulenta, Lobão traça um painel daquela geração da música pop brasileira, construída e consagrada entre o final dos anos 1970 e meados dos 1980.
Percorrem o livro, entre tantos, Marina Lima, Ritchie, Cazuza, Lulu Santos, Evandro Mesquita, os Titãs, a Gang 90, Herbert Vianna. Os desentendimentos com este último mereceram espaço generoso. Lobão coleciona uma série de histórias que, segundo ele, comprovam uma “obsessão’’ do líder dos Paralamas do Sucesso por sua pessoa – incluindo plágios e sabotagens.
Lobão – 50 Anos a Mil termina quando o cantor chega a São Paulo para morar, em 2008. É vida nova.
– O que mais me deixou orgulhoso é que o livro está bem escrito. Se, teoricamente, tudo o que eu contei ali fosse mentira, ele valeria como um bom romance.
LIVRO: 50 Anos a Mil, de Lobão e Claudio Tognolli. Nova Fronteira. 752 págs. R$ 59,90




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Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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