FSW 2011 já tá rolando!

O Fórum Social Mundial (FSM) 2011 

Este mundo é impossível

Por Mario Lubetkin

[07 de fevereiro de 2011 – 16h54]

Tem um significado singular o fato de, pela segunda vez, o FSM centralizar suas discussões em um país africano e pela primeira vez em um país africano de fala francesa.

A preparação dos fóruns implica enormes esforços organizacionais e econômicos que não seriam possíveis sem uma adesão maciça e uma fervorosa militância. Este Fórum, em particular, dará um impulso poderoso à sociedade civil senegalesa, que desde o centro da África se propagará ao resto do continente, e além dele.

Desde 2001, o FSM gera enormes expectativas com seus debates, suas ideias e propostas em torno de seu lema e meta final: “Outro mundo é possível”.

Esta década foi um dos períodos mais turbulentos e mais pródigos em mudança na história universal. Quando começou, ainda predominava a ideologia neoliberal no mundo, o Consenso de Washington tinha valor de mandamento, o mundo das finanças se expandia e sufocava a economia real, chegava-se até a afirmar que conter a catastrófica aceleração da mudança climática era tarefa que deveria ser entregue ao empenho da empresa livre e das forças do mercado. Era, então, tão sufocante a hegemonia de Washington que conseguiu fazer valer o urdido pretexto da produção de armas de destruição em massa no Iraque e, mesmo depois que essa falsidade veio à tona, lançar suas forças e a de alguns aliados na invasão desse infeliz país, deixando de lado as Nações Unidas.

Em todos esses anos, os fóruns não foram apenas ambientes de denúncias, de mobilização e resistência. Nas análises de seus expoentes foi previsto e antecipado que a liberalização a todo custo, a fé cega no mercado como reitor da economia e o veto contra toda ação reguladora do mercado, especialmente dos grupos financeiros que praticavam uma especulação desenfreada, levariam a um desastre planetário.

Foi exatamente o que ocorreu, apesar de muitos, de fora dos fóruns iniciais, desprezarem tais advertências, tachando-as de ingênuas, ou ilusórias, engendradas por um extremismo ideológico.

Esta década, portanto, confirma a premissa e a crítica que inspira o FSM: “Este mundo é impossível”. É, portanto, necessário – e possível – outro mundo.

Enquanto o primeiro já está fora de discussão, para o segundo somente se apresentam condições mais favoráveis do que nunca, certamente não um caminho sem obstáculos, para conseguir as mudanças e as reformas que implantem um mundo melhor, mais justo, mais seguro, mais sustentável.

Em outras palavras, esta grande crise pode derivar em uma restauração convenientemente sustentada que mantenha o essencial do sistema durante um longo período, se a sociedade civil não opuser uma articulada e firme resistência que obrigue a mudanças profundas.

Esta já ocorreu, precisamente com a tão lembrada nestes dias Grande Depressão, sucessiva à crise de Wall Street de 1929. Para superá-la, o New Deal do presidente Roosevelt fez mudanças como a separação entre bancos comerciais e bancos de investimentos, colocou controles e limites à exposição financeira e adotou outras medidas que seria longo enumerar aqui.

Com essas correções, o sistema se manteve pouco mais de meio século, até que nos anos 1980 começou um processo de eliminação de controles que culminou com a precipitação absoluta do segundo mandato de George W. Bush e a depressão mundial que foi sua previsível e trágica consequência.

Este é o dilema que se apresenta ao FSM em Dacar e voltará a se apresentar o seguinte: como fazer com que este processo que diagnosticou e cuja implosão previu, possa ir além da simples restauração e seja o início das mudanças que propõe?

Do nosso ponto de vista, sua mensagem deve chegar à sociedade civil em seu conjunto, para que esta se mobilize e se converta em decisivo fator de pressão. O obstáculo principal é a barreira colocada pelo sistema dos meios de comunicação, que até agora são pouco receptivos em relação aos fóruns. Deve-se, portanto, dar prioridade à batalha pela informação.

Esta batalha não deve ser travada somente na mídia convencional. Por uma feliz coincidência, o Fórum de Dakar acontece imediatamente após as rebeliões populares na Tunísia e no Egito. Nos dois países vigorava uma ditadura, a imprensa estava majoritariamente controlada pelo governo e eram escassos os veículos de comunicação independentes, enquanto os partidos de oposição, como costuma acontecer em regimes autoritários, careciam de importância e influência. Tudo estava sob controle dos ditadores, aparentemente. Porém, a oposição, mesmo virulenta, existia e era amplamente majoritária. Não podendo contar com liberdade política e com imprensa que refletisse suas reclamações, a sociedade civil esperou a ocasião e se dotou de seus próprios meios de intercomunicação, via Internet e por canais mais diretos.

É exatamente desse modo que se criou o Fundo Social Mundial, como uma rede social alheia a partidos políticos e interesses religiosos ou econômicos.

Por isto, os ventos que sopram do Norte da África são um ensinamento e um estímulo para as reuniões de Dacar e, sobretudo, uma confirmação das estratégias dos fóruns, que nascem e operam dentro da sociedade civil para promover e impor as mudanças de baixo para cima, que são as únicas que podem mudar o mundo.

Mario Lubetkin é diretor-geral da agência de notícias Inter Press Service (IPS).

Fonte ENVOLVERDE:http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=86487&edt;=1

Foto Flickr: http://www.flickr.com/photos/skasuga/136719759/sizes/z/

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Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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