Holocausto Imperial

1898-1906:

DA GUERRA HISPANO-AMERICANA À GUERRA FILIPINO-AMERICANA


Na Guerra Hispano-Americana de 1898 os Estados Unidos tomaram as colónias espanholas no Caribe e no Pacífico, emergindo pela primeira vez como uma potência mundial. 
Tal como em Cuba, o domínio colonial espanhol nas Filipinas provocou uma luta de libertação nacional. Imediatamente após o bombardeamento naval de Manilha, em 1 de Maio de 1898, no qual a frota espanhola foi destruída, o almirante Dewey enviou uma canhoneira a Hong Kong para buscar o líder revolucionário filipino Emilio Aguinaldo. 
Os Estados Unidos queriam que Aguinaldo liderasse uma nova revolta contra a Espanha para continuar a guerra antes que chegassem as tropas americanas. Os filipinos tiveram tanto êxito que em menos de dois meses derrotaram os espanhóis na ilha principal de Luzon, sitiando as tropas espanholas remanescentes na cidade capital de Manilha, ao mesmo tempo que quase todo o arquipélago caía em mãos filipinas. Em Junho os líderes filipinos emitiram a sua própria Declaração de Independência baseada no modelo americano. Quando as forças americanas finalmente chegaram, no fim de Junho, os 15 mil soldados espanhóis escondidos em Manilha estavam cercados pelo exército filipino entrincheirado em torno da cidade — de modo que as forças americanas tiveram de pedir permissão para atravessar as linhas filipinas a fim de enfrentar estas tropas espanholas remanescentes. O exército espanhol rendeu-se às forças americanas em Manilha em 13 de Agosto de 1898, depois de apenas umas poucas horas de combate. Num acordo entre os Estados Unidos e a Espanha, as forças filipinas foram mantidas fora da cidade e foram postas de parte na rendição. Esta foi a batalha final daquela guerra. John Hay, embaixador americano na Grã-Bretanha, apreendeu o espírito imperialista daquele tempo quando escreveu que a Guerra Hispano-Americana como um todo fora “uma esplêndida pequena guerra”.

Contudo, uma vez ultrapassado o combate com a Espanha, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer a existência da nova República Filipina. Em Outubro de 1898 a administração McKinley revelou publicamente pela primeira vez que pretendia anexar todas as Filipinas. Dizem que ao chegar a esta decisão o presidente McKinley teria dito que “Deus Poderoso” ordenara-lhe que fizesse das Filipinas uma colónia americana. Poucos dias após este anúncio foi estabelecida em Boston a Liga Anti-Imperialista da Nova Inglaterra. Dentre os seus membros incluíam-se pessoas célebres como Mark Twain, William James, Charles Francis Adams e Andrew Carnegie. No entanto, a administração avançou e em Dezembro concluiu o Tratado de Paris, pelo qual a Espanha concordava em ceder as Filipinas à nova potência imperial, bem como suas outras possessões capturadas pelos Estados Unidos durante a guerra.

A isto seguiu-se um violento debate no Senado acerca da ratificação do tratado, centrando-se sobre os estatutos da Filipinas, os quais, excepto para a cidade de Manilha, estavam sob o controle da nascente República Filipina. Em 4 de Fevereiro de 1899, tropas americanas com ordens para provocar um conflito com as forças filipinas que cercavam Manilha foram deslocadas para o terreno contestado que se situava entre as linhas americanas e filipinas, nos subúrbios da cidade. Quando se depararam com soldados filipinos os soldados americanos gritaram “Alto” e a seguir abriram fogo, matando três deles. As forças americanas começaram imediatamente uma ofensiva geral, com todo o seu poder de fogo, que equivaleu a um ataque surpresa (os principais oficiais filipinos estavam longe na altura, a participar de um esplêndido baile celebratório), infligindo enormes baixas às tropas filipinas. O San Francisco Call relatou em 5 de Fevereiro que no momento em que as notícias chegaram a Washington McKinley disse a “um amigo íntimo…que na sua opinião o enfrentamento de Manilha asseguraria a ratificação do tratado no dia seguinte”.

Estes cálculos demonstraram-se correctos e no dia seguinte o Senado ratificou oficialmente o Tratado de Paris, pondo fim à Guerra Hispano-Americana — cedendo Guam, Porto Rico e Filipinas aos Estados Unidos, e pondo Cuba sob controle americano. Ele estipulava que os Estados Unidos pagariam à Espanha 20 milhões de dólares pelos territórios que haviam ganho por meio da guerra. Mas isto pouco disfarçava o facto de que a Guerra Hispano-Americana foi uma captura aberta e sem rodeios de um império colonial ultramarino pelos Estados Unidos, em resposta à necessidade percebida pelos meios de negócio americanos, que se recuperavam de uma retracção económica, de novos mercados globais.

Os Estados Unidos imediatamente impulsionaram a Guerra Filipino-Americana, que principiara dois dias antes — e que demonstrou-se como uma das mais bárbaras guerras de conquista imperial da história. O objectivo dos EUA neste período era expandir-se não só no Caribe como também no Pacífico — e através da colonização das ilhas filipinas ganhar uma entrada no enorme mercado chinês. (Em 1900, a partir das Filipinas, os Estados Unidos enviaram tropas à China para se juntarem a outras potências imperiais no esmagamento da Rebelião Boxer).

Muitos nos Estados Unidos, incluindo o presidente McKinley e Theodore Roosevelt, saudaram o apelo violento de Kipling para que os Estados Unidos se engajassem em “guerras selvagens”, principiando pelas Filipinas. O senador Albert J. Beveridge, de Indiana, declarou: “Deus não andou a preparar os povos de língua inglesa e teutónicos durante um milhar de anos para nada senão a vã e ociosa auto-contemplação e auto-admiração… Ele fez-nos peritos em governação para que possamos administrar governo entre povos selvagens e senis”. No fim, mais de 126 mil oficiais e soldados foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência durante uma guerra que perdurou oficialmente desde 1899 até 1902 mas que realmente continuou durante muito mais tempo, com resistência esporádica ao longo de mais de uma década. As tropas americanas travaram 2800 confrontos com a resistência filipina. Pelo menos 250 mil filipinos, a maior parte deles civis, foram mortos, juntamente com 4200 soldados americanos (mais de dez vezes do que o número de baixas fatais na Guerra Hispano-Americana).
Desde o princípio ficou claro que as forças filipinas não eram capazes de rivalizar com os Estados Unidos em termos de guerra convencional. Elas portanto passaram rapidamente à guerra de guerrilha. As tropas americanas em guerra com os filipinos jactavam-se, numa popular canção de marcha, de que “civilizariam com o Krag” (referindo-se à arma concebida por noruegueses com as quais as forças americanas eram equipadas). Mesmo assim acabaram por enf
rentar intermináveis pequenos ataques e emboscadas de filipinos, os quais costumavam usar facas longas conhecidas como bolos. Destes ataques guerrilheiros resultavam mortes em combate de soldados americanos em pequenos números mas com regularidade. Tal como em todas as guerras de guerrilha prolongadas, a força da resistência filipina devia-se ao facto de ter o apoio da generalidade da população. Tal como o general Arthur MacArthur (o pai de Douglas MacArthur), que em 1900 tornou-se governador militar das Filipinas, confidenciou a um repórter em 1899:

Quando comecei a actuar contra estes rebeldes, acreditava que as tropas de Aguinaldo representavam apenas uma facção. Eu não queria acreditar que toda a população de Luzon — isto é, a população nativa — opunha-se a nós e às nossas ofertas de ajuda e bom governo. Mas depois de ter avançado mais com isto, depois de ter ocupado várias cidades e povoados seguidos… fui relutantemente obrigado a acreditar que as massas filipinas são leais a Aguinaldo e ao governo que ele encabeça.

Confrontados com uma guerra de guerrilha apoiada pela vasta maioria da população, os militares americanos responderam a isto através do reagrupamento das populações em campos de concentração, incendiando aldeias (os filipinos por vezes eram forçados a carregarem a gasolina utilizada para incendiar as suas próprias casas), enforcamentos em massa, seccionamentos a baioneta de suspeitos, violação sistemática de mulheres e crianças e tortura. A mais infame técnica de tortura, usada reiteradamente nesta guerra, era a chamada “cura de água”. Grandes quantidades de água eram despejadas à força nas gargantas dos prisioneiros. Os seus estômagos ficavam então salientes de modo que a água era expelida a três pés de altura “como num poço artesiano”. A maior parte das vítimas morria não muito tempo depois disso. O general Frederick Funston não hesitou em anunciar que havia pessoalmente enforcado um grupo de 35 civis suspeitos de apoiarem os revolucionários filipinos. O major Edwin Glenn não viu qualquer razão para negar a acusação de que ele fizera um grupo de 47 prisioneiros filipinos ajoelhar-se e “arrepender-se dos seus pecados” antes de cortá-los a baioneta e levá-los à morte. O general Jacob Smith ordenou às suas tropas que “matassem e queimassem”, a alvejarem “todos os grupos superiores a dez” e a transformarem a ilha de Samar “num imenso deserto”. O general William Shafter, na California, declarou que poderia ser necessário matar a metade da população filipina a fim de proporcionar a “perfeita justiça” à outra metade. Durante a Guerra Filipina os Estados Unidos inverteram as estatísticas de baixas de guerra normais — habitualmente há muito mais feridos do que mortos. Segundo estatísticas oficiais (discutidas em audiências no Congresso sobre a guerra) as tropas americanas mataram 15 vezes mais filipinos do que os feriram. Isto confirma frequentes relatos de soldados americanos de que combatentes combatentes filipinos feridos e capturados eram executados sumariamente no local.

A guerra continuou mesmo após a captura de Aguinaldo, em Março de 1901, mas foi declarada oficialmente concluída pelo presidente Theodoro Roosevelt em 3 de Julho de 1902 — numa tentativa de suprimir a crítica às atrocidades americanas. Naquele momento, a maior parte das ilhas do norte fora “pacificada” mas a conquista das ilhas a sul ainda estava em andamento e a luta perdurou durante anos — embora nos Estados Unidos de então os rebeldes fossem caracterizado como meros bandidos.  
Nas Filipinas do sul o exército colonial americano estava em guerra com filipinos muçulmanos, conhecidos como Moros. Em 1906 foi executado aquilo que veio a ser conhecido como o Massacre Moro, quando pelo menos nove centenas de filipinos, incluindo mulheres e crianças, foram encurralados numa cratera vulcânica na ilha de Jolo e metralhados e bombardeados durante dias. Todos os filipinos foram mortos, ao passo que as tropas americanas sofreram apenas um punhado de baixas. 
Fonte http://resistir.info .

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