Séc XXI: O século que não começou

Como Kipling ressuscitou no séc XXI: 

O “Fardo do Homem Branco” e o imperialismo americano

A MENSAGEM DE KIPLING AOS iMPERIALISTAS, CEM ANOS dEPOIS (2003):

Por Monthly Review-Inglaterra (2003) 


Embora o imperialismo tenha permanecido uma realidade ao longo do último século, durante a maior parte do século XX o próprio termo foi considerado como além do permitido dentro dos círculos polidos do establishment, tão grande foi o ultraje anti-imperialista levantado pela Guerra Filipino-Americana e pela Guerra Boer, e tão efectiva foi a teoria marxista do imperialismo em arrancar o véu das relações capitalistas globais. Nestes últimos poucos anos (2003) entretanto, “imperialismo” tornou-se outra vez um brado de apelo para neoconservadores e neoliberais afins. Tal como reconheceu recentemente Alan Murray, Chefe do Bureau de Washington da CNBC numa declaração dirigida principalmente às elites: “Todos nós, parece, somos agora imperialistas” ( Wall Street Journal , 15/Jul/ 2003).

Se alguém duvidasse por um instante de que a atual expansão do império americano não é senão a continuação de uma história de um século do imperialismo americano além mar, Michael Ignatieff (Professor de Política dos Direitos Humanos na Kennedy School of Government, de Harvard) torna isto claro como o dia:

A operação Iraque assemelha-se mais à conquista das Filipinas entre 1898 e 1902. Ambas foram guerras de conquista, ambas foram pressionadas por uma elite ideológica sobre um país dividido e ambas custaram muito mais do que o orçamentado. Tal como no Iraque, vencer a guerra foi a parte fácil… Mais de 120 mil soldados americanos foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência guerrilheira, e 4000 nunca voltaram. Ainda está para ser visto se o Iraque custará milhares de vidas americanas — e se o público americano aceitará um preço tão pesado para o êxito no Iraque. (New York Times Magazine , 07/Set/2003).
Com representantes do establishment a sustentarem abertamente ambições imperialistas, não deveríamos surpreender-nos com as repetidas tentativas de trazer de volta o argumento do “fardo do homem branco” de uma forma ou de outra. Nas páginas de encerramento do seu livro premiado, The Savage Wars of Peace , Max Boot cita o poema de Kipling:

Assuma o fardo do Homem Branco—
—E obtenha a sua recompensa de sempre:
A censura daqueles que você melhora,
—O ódio daqueles que você guarda—
(Take up the White Man’s burden—
—And reap his old reward:
The blame of those ye better,
—The hate of those ye guard—)

Boot insiste em que Kipling estava certo, que “os colonialistas, por toda a parte, habitualmente recebem poucos agradecimentos no fim”. No entanto, deveríamos ser encorajados, diz-nos ele, pelo facto de que “a maior parte do povo não resistiu à ocupação americana, como certamente teria feito se ela tivesse sido desagradável e brutal. Muitos cubanos, haitianos, dominicanos e outros podem secretamente ter saudado o domínio americano”. A implicação principal de Boot parece bastante clara — os Estados Unidos deveriam outra vez “Assumir o fardo do Homem Branco”. O seu livro, publicado em 2002, termina argumentando que os Estados Unidos deveriam ter deposto Saddam Hussein e ocupado o Iraque na altura da Guerra do Golfo de 1991. Aquela tarefa, indicou ele, ficou por cumprir.

Boot é o antigo editor de peças editoriais de The Wall Street Journal , e agora Investigador Senior em Estudos de Segurança Nacional do Council on Foreign Relations. O título de The Savage Wars of Peace foi retirado directamente de uma linha no “Fardo do Homem Branco” de Kipling. As 428 páginas de Boot com a glorificação das guerras imperialistas dos EUA receberam o Prémio Best Book de 2002 do Washington Post, Christian Science Monitor , e do Los Angeles Times
e ganharam o Prémio General Wallace M. Greene Jr. 2003 pelo melhor livro de não ficção relativo à história do Marine Corps. Boot sustenta que a Guerra Filipina foi “uma das mais bem sucedidas contra-insurreições travadas por um exército ocidental nos tempos modernos” e declara que, “pelos padrões da época, a conduta dos soldados americanos foi melhor do que a média em guerras coloniais”. O papel imperial americano nas Filipinas, o assunto do “Fardo do Homem Branco” de Kipling, está portanto a ser apresentado como um modelo para a espécie de papel imperial que Boot e outros neoconservadores estão agora a encorajar nos Estados Unidos. Mesmo antes da guerra no Iraque, Ignatieff observava: “o imperialismo costumava ser o fardo do homem branco. Isto deu-lhe uma má reputação. Mas o imperialismo não deixou de ser necessário porque ser politicamente incorrecto” — um ponto que pode muito bem ser lido como estendendo-se ao próprio “fardo do homem branco”. ( New York Times Magazine , 28/Jul/2002).

A Guerra Filipino-Americana está agora a ser redescoberta como a mais estreita aproximação da história americana aos problemas que os Estados Unidos estão a encontrar no Iraque. Além disso, os Estados Unidos aproveitaram-se dos ataques do 11 de Setembro de 2001 para intervir militarmente não só no Médio Oriente como também em todo o globo — incluindo as Filipinas onde instalou milhares de soldados para ajudar o exército filipino a combater os insurrectos Moro nas ilhas do sul. Neste novo clima imperialista, Niall Ferguson, Professor de História na Stern School of Business, Universidade de Nova York, e um dos principais advogados do novo imperialismo, focou o poema de Kipling “O Fardo do Homem Branco” no seu livro Empire(2002). “Ninguém”, diz-nos Ferguson,

ousaria utilizar uma linguagem tão politicamente incorrecta hoje em dia. A realidade no entanto é que os Estados Unidos — quer se admita quer não — assumiram uma espécie de fardo global, tal como instava Kipling. Consideram-se responsáveis não só por travar uma guerra contra o terrorismo e Estados vilões, mas também por difundir os benefícios do capitalismo e da democracia além mar. E tal como o Império Britânico antes, o Império Americano actua para sempre em nome da liberdade, mesmo quando o seu próprio auto-interesse está em primeiro lugar.
Apesar da alegação de Ferguson de que “ninguém ousaria” chamar a isto hoje em dia “o fardo do homem branco” por ser “politicamente incorrecto”, referências simpáticas a esta expressão continuam a aflorar — e a maior parte delas nos círculos privilegiados. Boot — que não pode ser considerado um marginal uma vez que está associado ao influente Council on Foreign Relations — é um bom exemplo. Tal como o próprio Ferguson, ele tenta incorporar o “fardo do homem branco” dentro de uma longa história de intervenção idealista, subestimando as realidades do racismo e do imperialismo. “Nos princípio do século XX”, escreve ele no capítulo final do seu livro (intitulado “In Defense of the Pax Americana”), “os americanos falavam da difusão da civilização anglo-saxonica e assumiam o ‘fardo do homem branco’, hoje falam de difundir a democracia e defender direitos humanos. Seja o que for que se chame, isto representa um impulso idealista que sempre foi uma parte importante do ímpeto americano para ir à guerra”.

Os imperialistas de hoje vêm o poema de Kipling principalmente como uma tentativa de endurecer a espinha dorsal da classe dirigente americana dos seus dias como preparação para o que ele chamou “as selvagens guerras da paz”. E é precisamente deste modo que eles agora aludem aos “fardo do homem branco” em relação ao século XXI. Assim, para a revista Economist a questão é simplesmente se os Estados Unidos estão “preparados para suportar o fardo do homem branco por todo o Médio Oriente”.

Como analista e como porta-voz do imperialismo, Kipling estava muito acima disto no sentido de que percebia perfeitamente o assomar das contradições do seu próprio tempo. Ele sabia que o Império Britânico estava demasiado estendido e condenado — mesmo que ele lutasse para salvá-lo e para inspirar os Estados Unidos em ascensão a entrarem na etapa imperial ao lado dele. Apenas dois anos antes de escrever “O Fardo do Homem Branco” escreveu os seus celebrados versos, “Recessional”:

Chamados para longe, nossos navios fundem-se,
—Sobre dunas e cabos mergulha o fogo;
Olhe, todo o nosso esplendor de ontem
—Está-se junto a Nínive e Tiro!
Juiz das Nações, poupe-nos por enquanto,
Para que não esqueçamos—para que não esqueçamos!
(Far-called, our navies melt away;
—On dune and headland sinks the fire;
Lo, all our pomp of yesterday
—Is one with Nineveh and Tyre!
Judge of Nations, spare us yet,
Lest we forget—lest we forget!)
Os Estados Unidos estão agora a abrir caminho para uma nova fase do imperialismo. Isto será marcado não só por aumentos de conflitos entre centro e periferia — racionalizado no Ocidente pelo racismo velado e não tão velado — mas também pela crescente rivalidade intercapitalista. Isto provavelmente acelerará o declínio a longo prazo do Império Americano, ao invés de reverte-lo. E nesta situação um apelo para um cerrar fileiras entre aqueles de extracção europeia (o “choque de civilizações” de Samuel Huntington ou algum substituto) provavelmente vai tornar-se mais atraente entre as elites americanas e britânicas. Deveria ser recordado que o “Fardo do Homem Branco” de Kipling era uma apelo à exploração conjunta do globo por aqueles a que Du Bois posteriormente chamou “os mestres brancos do mundo” em face da decadência das fortunas britânicas. Assim, em momento algum deveríamos subestimar a tríplice ameaça do militarismo, imperialismo e racismo — ou esquecer que as sociedades capitalistas historicamente foram identificadas com todas as três. 

Original em  http://www.monthlyreview.org/1103editors.htm .
Tradução de JF. 
Fonte: http://resistir.info

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Irmão mais velho do neandertal, mais novo do homo-sensibilis.
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