Homem de Denisova

O TERCEIRO HOMEM
(28/03/2010) GeoLiria

A revista Nature publica esta semana um artigo de quatro páginas que vem revolucionar completamente a nossa história recente. É uma história dos nossos dias como espécie, não dos nossos dias de pessoas com uma vida evolutivamente muito curta, o que é válido para qualquer espécie.

A equipa de Svante Paabo, do Max Planck Institut de Leipzig, publicou os resultados da análise do DNA mitocondrial de um Homo sapiens que viveu no sul da Sibéria há cerca de 30-50 mil anos. O DNA foi extraído da falangeta do quinto dedo da mão. Graças à sua preservação no gelo, foi possível extrair uma quantidade suficiente de DNA em muito bom estado, o que é extremamente raro.

A análise desse DNA mitocondrial, por comparação com o nosso, o de Neandertais, que entretanto se conseguiu obter, e o de chimpanzés, produziu resultados absolutamente inesperados.

O que há de absolutamente especial no homem de Denisova? Não é facto – real – de não pertencer à nossa sub-espécie, isto é, não é um Homo sapiens sapiens, ou seja um homem moderno actual. É que este homem de Denisova também não é um Neandertal. Trata-se de um terceiro Homem!

A distância genética (medida em número médio de nucleótidos diferentes, isto é, de letras trocadas no DNA) entre nós e os Neandertais é de 202 posições nucleotídicas. A distância entre nós e o Homem de Denisova é de 385 posições. Por comparação, a nossa distância em relação aos chimpanzés é de 1462 posições. Isto que dizer que o Homem de Denisova é mais diferente de nós que o Homem de Neandertal. Supondo que o tempo de divergência entre nós e os chimpanzés é de seis milhões de anos, isso significa que os nosso antepassados e os do Homem de Denisova se terão separado há cerca de um milhão de anos (muito antes da separação humanos-Neandertais: 500 mil anos).

Até hoje, pensava-se que nos últimos 500 mil anos teriam existido apenas duas sub-espécies da espécie Homo sapiens: Nós e o H. sapiens neandethalensis. Este último, que ocupou grande parte da Europa, durante os últimos 300 mil anos, extinguiu-se há 28 mil anos, com as últimas populações conhecidas encontradas na Península Ibérica. Foram avançadas várias hipóteses para a extinção dos Neandertais que parece ser acompanhada da progressão dos humanos modernos; umas mais benignas que outras para a nossa linhagem. Mas não fazia parte do quadro conceptual que pudessem existir outras formas, mais formas de humanos, com divergências relativamente antigas e cujas populações persistiram até tão recentemente.

Há alguns anos levantou-se a polémica possibilidade de o designado ‘hobbit’, descoberto na Ilha das Flores, no mar de Timor, ser uma espécie ou sub-espécie diferente da nossa, que desapareceu há pouco mais de dez mil anos. Em alternativa, poderia tratar-se de um caso de nanismo e de mais uma série de patologias reunidas num único indivíduo. Não está ainda resolvido qual das duas hipóteses é a correcta. O mistério do Homem das Flores ainda se encontra em aberto.

A descoberta deste Homem de Denisova, de que não há mais do que aquele fragmento de esqueleto, vem colocar o nosso passado evolutivo num quadro muito diferente. Se este siberiano é um terceiro homem, porque não aceitar que o homem das Flores é um quarto. E, se assim é, torna-se muito mais plausível admitir mais sub-espécies noutras regiões isoladas. A nossa espécie parece, assim, ter um carácter muito especioso, isto é, com tendência para frequente separação entre populações e rápida evolução em sentidos diversos.

Tudo isto é muito surpreendente. A falangeta do Homem de Denisova aponta para um passado bem diferente do que imaginávamos. Esperemos para saber o que nos dirá a análise do DNA nuclear. Este é um verdadeiro filme de suspense, como o ‘terceiro homem’ de Carol Reed.

Genoma de antigos habitantes da Sibéria lançam luz sobre as origens do homem

(04/01/2010)The New York Times

Ossos de dedos encontrados em uma caverna não pertenciam nem aos Neandertais, nem aos humanos modernos

Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada por Svante Pääbo do Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária, em Leipzig (Alemanha), sequenciou o genoma nuclear de um osso do dedo de um hominídeo extinto há pelo menos 30 mil anos escavado por arqueólogos no sul da Sibéria, Rússia, em 2008. A análise genética foi conduzida por uma equipe da Harvard Medical School. O sequenciamento mostrou que os habitantes da caverna não eram nem neandertais, nem seres humanos modernos.
No último ano, Svante Pääbo e seus colegas mostraram que o DNA mitocondrial do osso do dedo exibia uma sequência incomum, sugerindo que ela veio de uma forma desconhecida de hominídeo antigo. Agora, os pesquisadores desenvolveram técnicas para sequenciar o genoma do Neandertal.

Os pesquisadores descobriram que o indivíduo do sexo feminino veio de um grupo de hominídeos que compartilhavam uma origem antiga, com os neandertais, mas subsequentemente divergiu. Eles chamam este grupo de Denisovans hominídeos.
Ao contrário do homem de Neandertal, o Denisovans não contribuiu para todos os genes Eurasians de hoje. No entanto, Denisovans compartilham um elevado número de variantes genéticas com populações modernas de Papua Nova Guiné, sugerindo que houve cruzamentos entre Denisovans e os ancestrais dos melanésios.
Além disso, um dente Denisovan encontrado na mesma caverna apresentou uma morfologia diferente de neandertais e humanos modernos, mas ssemelhante a formas de hominídeo mais velho.
Bence Viola, cientista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, dsse que “o dente é simplesmente fantástico. Ela nos permite conectar a informação morfológica e genética”.
Segundo Svante Pääbo, “em combinação com a sequência do genoma do Neandertal, o genoma Denisovan sugere uma imagem complexa de interações genéticas entre nossos antepassados e os diferentes grupos de hominídeo antigo”.
The New York Times


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